Fundador e perfumista
Entre método, memória e imaginação
Benjamin Nunes cria fragrâncias no encontro entre a precisão da tecnologia, a sensibilidade da música e o poder narrativo da literatura.
O perfumista por trás da William Nuno
Benjamin Nunes é o fundador e perfumista à frente da William Nuno Fragrances. Sua relação com os aromas nasce de diferentes maneiras de perceber e organizar o mundo: o pensamento estruturado, a escuta sensível e o desejo de transformar ideias, cenas e lembranças em atmosferas.
Na perfumaria, Benjamin encontrou uma linguagem capaz de reunir essas dimensões. Uma fragrância pode ser construída com método, mas nunca se resume a uma sequência de decisões técnicas. Ela precisa ter intenção, personalidade e espaço para encontrar a memória de quem a sente.
O método organiza o caminho. A intuição reconhece quando uma fragrância finalmente encontrou a sua voz.
Da engenharia de dados à linguagem do aroma
Antes da criação da marca, Benjamin trabalhou por cerca de dez anos como engenheiro de dados. Dessa trajetória vieram o pensamento analítico, a disciplina de documentação e a atenção aos detalhes que hoje acompanham seu processo criativo.
As duas atividades parecem ocupar territórios distantes, mas compartilham algo essencial: observar relações, testar hipóteses, reconhecer padrões e transformar complexidade em uma estrutura compreensível. Na criação olfativa, essa formação se traduz em ciclos de experimentação, comparação e refinamento.
O rigor, porém, não é usado para retirar a emoção do processo. Ele cria condições para que uma ideia sensorial seja desenvolvida com consistência. A técnica sustenta a criação; não substitui a escuta, a dúvida ou a capacidade de perceber quando uma composição ainda precisa de tempo.
Música, literatura e memória
A música também faz parte da formação sensível de Benjamin. Ritmo, contraste, silêncio, repetição e passagem são ideias que podem existir tanto em uma composição musical quanto na evolução de uma fragrância no ambiente.
A literatura acrescenta outra camada: a possibilidade de criar mundos sem precisar mostrá-los por inteiro. Um aroma pode sugerir uma paisagem, uma época, uma presença ou um estado de espírito. Como em um livro, parte da experiência nasce daquilo que a obra oferece; outra parte pertence a quem a encontra.
Por isso, a memória do criador é apenas um ponto de partida. Quando uma fragrância entra em uma casa, passa a conviver com outros espaços, gestos e afetos. A história inicial encontra novas histórias e adquire significados que já não pertencem somente ao perfumista.
O processo criativo
Da ideia à matéria
O desenvolvimento de cada fragrância acontece em ciclos. Uma intenção é traduzida para o olfato, avaliada no tempo e revisitada até que aroma, projeção e personalidade encontrem equilíbrio. Algumas criações chegam rapidamente à sua forma; outras precisam permanecer em desenvolvimento até que sua história esteja clara.
Respeitar esse tempo é parte essencial do trabalho. Uma versão pode estar tecnicamente correta e ainda não expressar o que deveria. Nesses momentos, o processo volta à escuta: comparar, retirar excessos, reconstruir contrastes e aceitar que nem toda ideia está pronta para se tornar produto.
| Intenção | A história, a atmosfera ou a emoção que orienta a criação. |
|---|---|
| Experimentação | Construção e comparação de caminhos olfativos possíveis. |
| Avaliação | Leitura de presença, evolução, equilíbrio e reconhecimento. |
| Refinamento | Revisões sucessivas até que técnica e identidade contem a mesma história. |
Criar uma experiência, não apenas um aroma
Para Benjamin, a fragrância é o centro da criação, mas não está isolada. Fotografia, design, palavra e audiovisual revelam dimensões diferentes da mesma obra. O recipiente participa do gesto; a imagem estabelece uma atmosfera; o texto oferece uma entrada possível para o universo olfativo.
Esses elementos não existem para explicar completamente o perfume. Sua função é criar coerência e ampliar a experiência, preservando o espaço de interpretação de cada pessoa. A William Nuno nasce dessa visão integrada: aroma, objeto e narrativa como partes de uma mesma presença.
A primeira coleção
Três fragrâncias para apresentar uma linguagem
Foram aproximadamente oito meses de desenvolvimento até que seis fragrâncias candidatas dessem lugar às três escolhidas para apresentar a William Nuno ao público. A seleção não procurou apenas três aromas agradáveis, mas composições capazes de coexistir e revelar uma assinatura comum.
| Velum | Frescor verde e luminoso, com figo, rosas e madeiras macias. |
|---|---|
| Nox Ambra | Especiarias, madeiras e uma base quente, cremosa e noturna. |
| Gardenia Velours | Flores brancas luminosas e carnais, envolvidas por verdes, âmbar e madeiras cremosas. |
As três foram imaginadas como atmosferas diferentes de uma mesma casa. Podem existir separadamente, mas compartilham uma linguagem construída entre frescor, cremosidade, flores, especiarias e madeiras.
Uma perfumaria brasileira em construção
Benjamin enxerga a vela como a porta de entrada para um projeto maior. Sua visão é construir uma casa brasileira de fragrâncias e objetos, em diálogo com literatura, música, artes, cerâmica e com as sensibilidades do país.
Esse horizonte não é apresentado como uma conquista já concluída. É uma direção: desenvolver uma perfumaria com autoria, método e uma voz capaz de contribuir para o reconhecimento da criação olfativa brasileira.
A proximidade com o público também faz parte desse caminho. Mostrar o processo, explicar escolhas e apresentar quem está por trás da marca são formas de construir confiança sem retirar o mistério que pertence à experiência do perfume.
O encontro
A criação termina no ateliê, mas a história continua na casa
Velum, Nox Ambra e Gardenia Velours são o primeiro capítulo desse percurso. Conheça as fragrâncias e encontre nelas as atmosferas, lembranças e significados que pertencem à sua própria história.